sábado, 12 de julho de 2014

10 Sites para Biólogo Nenhum Botar Defeito!


Pesquisar na internet parece ser bem fácil. Só parece. Mas quando você mais precisa encontrar informações sérias e precisas sobre o assunto do seu interesse, logo descobre que a maioria dos conteúdos que aparecem nos resultados da sua busca são de fontes que você nem sabe se existem de verdade, quem dirá se são confiáveis! Os links abaixo não formam uma "lista dos dez mais" mas sim um conjunto de links que podem contribuir muito nos seus estudos e pesquisas.


IUCN - International Union for Conservation of Nature

A União Internacional para a Conservação da Natureza define-se como a maior e mais antiga organização ambiental do mundo. Suas ações, campanhas de conscientização, e diversas informações encontram-se disponibilizadas no site da IUCN, incuindo o link da "Red List".

The IUCN Red List of Threatened Species (Lista vermelha das espécies ameaçadas - IUCN)

Espécies ameaçadas, em vias de extinção, grau de risco, dados taxonômicos e ecológicos criteriosamente publicados e de acesso livre. Pena que seus dados mostram a preocupante situação das espécies em risco ou mesmo extintas na natureza (embora ligada à IUCN, a Red List constitui um site específico).

SBG: Sociedade Brasileira de Genética 

Download de ótimos livros eletrônicos, novidades sobre prêmios e eventos científicos na área são algumas coisas que podem ser aproveitadas no site da SBG. Indicadíssimo para qualquer estudante de biologia ou áreas afins. Além de links para os periódicos Genética na Escola e Genetics and Molecular Biology, da SBG, o site possui muitos outros links informativos.

IBAMA

O site do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) é indicado principalmente para assuntos como legislação ambiental, proteção do meio ambiente e dos recursos naturais renováveis e ações do Ministério do Meio Ambiente. Além dos inúmeros links próprios e novidades, há também outros links relacionados com o MMA, tais como do ICMBio e ANA.

Portal FIOCRUZ

A Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) possui um dos periódicos mais importantes do mundo nas ciências biológicas e biomédicas: Memórias do IOC. Este dado já mostra o potencial da instituição e, uma visita ao seu site, é bastante proveitosa para todos que se interessam pela área da saúde e ciências biológicas e biomédicas.

WWF Brasil

Conhecido pelo seu ativismo em prol da proteção do meio ambiente, o WWF é uma referência de peso a ser considerada quando o assunto é mobilização para a proteção do meio ambiente e da biodiversidade. A ONG WWF-Brasil possui um site com interface atrativa e linguagem simples e em português.

SciELO - Scientific Electronic Library Online

Mantido pela FAPESP e CNPQ, o SciELO é uma fonte multidisciplinar de trabalhos científicos. Diversos artigos, e-books e periódicos de boa qualidade estão disponíveis, incluindo muitas revistas importantes da área da biologia no Brasil.

NCBI - National Center for Biotechnology Information

Se você procura artigos de altíssimo nível e muita informação biológica (especificamente nas áreas da biologia molecular, genética e medicina) em um só lugar, este é seu candidato número 1! O NCBI, assim como o SciELO, funciona como um portal a partir do qual diversos periódicos e artigos científicos podem ser acessados.  A interface é complicada e você pode se sentir meio perdido de primeira diante do enorme acervo, mas o mecanismo de busca é ótimo e é possível até mesmo encontrar as sequências de DNA e RNA já estudadas, bem como estruturas moleculares.

Lista de Espécies da Flora do Brasil

Procura informações taxonômicas precisas sobre a flora brasileira? Este site, administrado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro e enriquecido com o trabalho de inúmeros botânicos dedicados ao estudo da riqueza florística do nosso país, além de delimitar nitidamente os diferentes táxons da nossa flora, dispõe de ferramenta para pesquisa por nome dos taxa, indica sinônimos e distribuição geográfica das espécies. 

The Field Museum

Meu favorito entre os populares!!! Indicado para cientistas e curiosos de todas as idades. Site de grande abrangência, conteúdo atualizado e mantido por instituição que aposta no conhecimento científico. Disponibiliza, além de muitas notícias e imagens interessantes, abordagens de diversas pesquisas realizadas por suas equipes e também publicações de pesquisadores de outras instituições (o grupo de estudos de Botânica do qual participei já publicou um  trabalho lá, para a minha indizível alegria!).

        Pesquisar errado diminui seu rendimento em termos de tempo e qualidade. Não basta digitar "PDF" na sua pesquisa, porque vai encontrar também uma série de slides, revistas sem muita qualidade e textos com a descrição ".pdf" de procedência desconhecida (esse tipo de coisa acontece mesmo no Google Acadêmico, é normal e os filtros de pesquisa também ajudam). Além disso, nem tudo que você precisa está em formato PDF e tem muita informação de qualidade e ótimos sites, só precisamos pesquisar direito. Vale lembrar também que não só as instituições mas a própria ciência são falíveis e passíveis a críticas. O objetivo aqui não foi atestar o patamar ou qualidade das instituições e sim indicar endereços eletrônicos com potencial para fornecer informações biológicas de interesse. Fica a dica, espero que possam aproveitar.

sábado, 28 de junho de 2014

O Que é Que o Nordeste Tem?



         Dizer que a Região Nordeste é a terra do educador Paulo Freire, dos escritores Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos, José Lins do Rêgo e Manuel Bandeira (entre muitos outros grandes...) do artista que pintou a clássica cena do grito da independência (Pedro Américo) e de uma lista infindável de políticos e intelectuais que fizeram história no país e fora dele, já dá uma ideia da riqueza cultural da Região Nordeste, mas falar da MÚSICA nordestina é preciso...


Em postagem anterior que fiz sobre música aqui no Metalink, eu mencionei a erudição da música do Sivuca (para ver, clique aqui), que fez sucesso nos palcos e na imprensa europeia (para não dizer no mundo) e mostrou a maestria com que os nordestinos fazem música, mas falar só em termos eruditos ou técnicos pode descaracterizar a popularidade da música nordestina, que é hoje um dos símbolos mais marcantes da cultura brasileira.



Mesmo não tendo a honra de ter presenciado uma apresentação do Sivuca, ou do Luiz Gonzaga, posso, pelos trabalhos mais famosos, como o de Caetano Veloso, Alceu Valença (que tive a oportunidade de ver em palco, bem como o Geraldo Azevedo, ótimo cantor, compositor e instrumentista) Zé Ramalho, Gilberto Gil, Armandinho, Lenine (ganhador de 2 prêmios “Grammy Latino”, um pelo melhor álbum –Falange Canibal- e outro por melhor canção brasileira  -Martelo Bigorna, em 2009-), Zeca Baleiro (também premiadíssimo), dos roqueiros Raul Seixas, Herbert Vianna e Pitty, e do violonista Canhoto da Paraíba, dizer que a música nordestina é um oceano repleto de pérolas admiráveis e que não precisam ser lapidadas, apenas apreciadas.

Se esta humilde postagem fosse uma lista, seria de um tamanho descomunal devido à quantidade enorme de grandes nomes, então, vamos esquecer um pouco a quantidade e vamos falar dos aspectos qualitativos...

Infelizmente, o Forró, um ritmo característico do nordeste e riquíssimo em estilos e músicos de grande competência, vem sendo invadido por uma mania de fazer um “forró de plástico”, descartável e que combina como em poucos casos toda sorte de termos de baixo nível e apelo pornográfico. No mais, dois ou três acordes, uma ou duas estrofes que digam qualquer coisa antes de um refrão vago; sob influência das “swingueiras” ou de qualquer outro modismo descomprometido com qualidade e que recorre a letras apelativas onde incitações à bebedeira são o principal (e único!) motivo pelo qual essas músicas são ouvidas, é triste ver que a boa música anda mesmo esquecida.

“O pastor virou doleiro, dinheiro virou cultura,
poesia virou salário, vulgaridade, receita.
Deus me livre dessa seita cujo Deus é feio e triste.

Se o belo ainda existe, o belo eu quero procurar.
Outono, verão, inverno, o mundo virou inferno.
Que o diabo pós-moderno, haja fogo pra queimar.” (Zeca Baleiro)

Não apenas entre os mais “fiéis” às raízes, mesmo algumas bandas que tocam um forró com aspectos mais modernos (Mastruz Com Leite, Magníficos... ) temos exemplos de ótimas bandas fazendo musica de primeira qualidade. O problema realmente é que os modismos acabam causando um efeito muito negativo... E que muitos desses artistas que inicialmente faziam uma música melhor, passam a fazer músicas descartáveis para não desaparecerem em meio à banalidade (banalizando-se!).

Em tempos de festas juninas, nosso nordeste resgata o gosto pelo bom modo de se fazer música (isso não deveria acabar no fim de do mês de junho): belas melodias, uma poesia simples, bons arranjos e mesmo nos trios de forró pé-de-serra, onde a formação do conjunto é bem simples, se pode ver a qualidade do que se chama propriamente de forró. Quando entram em cena artistas como Flávio José, Alcymar Monteiro e tantos outros grandes nomes do forró tradicional, nos parece inacreditável que tanta gente esteja fazendo sucesso com porcaria: música boa não falta!

            “Cada um curte o que gosta,
Eu sempre pensei assim.
Só gosto de música boa,
Não gosto de música ruim.” (Amazan)


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Uma Aula de Geologia

O local




Pico do Jabre. Um lugar a 1.197 metros de altitude na Serra de Teixeira, município de Matureia, o ponto mais alto do estado da Paraíba. Local onde a pediplanação traçou a linha entre o Planalto da Borborema e as terras baixas do Sertão e deixou um rastro de inselbergs de resistência. Um belo lugar - diga-se de passagem- que merece que deixemos uma breve descrição para os que ainda não conhecem.


O objetivo

Uma aula de Geologia para alunos dos cursos de Ciências Biológicas e Agroecologia da Universidade Estadual da Paraíba, onde se pudesse visualizar diretamente diversos aspectos dos processos e elementos formadores da paisagem, bem como a própria paisagem resultante da história natural da região. Foi perfeitamente cumprido: não só pela tranquilidade e oportunidades de aprendizado, mas também porque poucas aulas nos deixam tão compenetrados quando as desse tipo.

Aula de campo regida pelo professor Ivanildo Costa para estudantes de
Biologia e Agroecologia da UEPB.



Mas primeiro, pernoitar.

A viagem de ônibus de Campina Grande até Matureia (cerca de três horas) foi tranquila, mas nem por isso deixaria de pedir um bom descanso. Não diria que estudantes ansiosos para uma aula de campo e que venham de turmas diferentes sejam prudentes para dormir cedo ao invés de bater papo, mas o lugar era agradável (com uma aparência rústica para dar um toque especial – Casarão do Jabre era o nome do hotel onde ficamos). No interior do casarão também funciona um museu onde coabitam armas arcaicas e peças sacras. 

Entre jogos de futebol na televisão, um jantar e a apresentação de músicos locais, boas conversas entre amigos, professor e alunos... No fim, descansar um pouco para a subida na manhã seguinte - e ela chegou rapidinho!



Acordar cedo nem sempre é a atividade mais atrativa do mundo, mas lá estávamos nós (ainda que uns antes dos outros, claro), prontos para a subida no Pico do Jabre.

Subindo...






Estar animado por sentir a brisa às seis da manhã de um dia frio é algo que só uma boa aventura justifica. Mesmo com a gente caminhando em aclive considerável, os ventos se faziam sentir no começo e no fim da subida (o calor era mais forte a meio caminho andado). E que subida! Uma paisagem a ser lembrada por um bom tempo, onde o nevoeiro disputava com as árvores altas e repletas de epífitas, qual seria a melhor cortina a reservar do nosso olhar a bela surpresa que nos aguardava no topo, após todas aquelas curvas. 



O Pico


O mosaico de mata serrana e afloramentos rochosos avistados dos quase 1.200 m de altitude, com a região sertaneja servindo de plano de fundo, antes de qualquer processo mental mais elaborado, antes de qualquer discussão teórica ou explicação científica, já seria uma perfeita recompensa ao esforço da subida. Mas como se não bastasse, nossa aula de Geologia realizada em campo preencheu de significados aquilo que já era admirável por simples aparência.


Observações

         As regiões mais elevadas, como as serras que encontramos no Planalto da Borborema, geralmente representam lugares relativamente mais úmidos, onde florestas conspícuas podem ser encontradas; elas predominam na Zona da Mata, entre o litoral e a caatinga, mas podemos encontrar formações florestais bem mais no interior, em altitudes geralmente superiores aos 500m. Tais florestas são bastante diversificadas em sua composição e são conhecidas por diferentes denominações como Matas Serranas, Mata Brejeira, Brejos de Altitude. 
Os diplópodes, assim como as briófitas (imagem abaixo), são organismos que ocorrem preferencialmente em ambientes úmidos. Os diplópodes por exigirem uma certa quantidade de umidade no ar para a respiração e evitar a desidratação; já as briófitas, são plantas que não possuem tecidos especializados na condução de água e nutrientes. Ambos foram encontrados com muita frequência no Pico do Jabre, sinalizando a existência de uma umidade considerável no local.

Os tufos verde-escuro sobre este tronco são musgos (Bryophyta). A planta um pouco maior em primeiro plano é uma pteridófita e as manchas esbranquiçadas no tronco são líquens folhosos.
De acordo com Rocha & Agra (2002), a vegetação encontrada no Pico do Jabre é subcaducifólia e mescla elementos florísticos das matas úmidas e caatingas. Andrade-Lima (1981), também observou a relação entre as maiores altitudes e formação de florestas no interior do Nordeste. A rocha aflora em diversos pontos, permitindo que sejam visualizadas a rocha do pico (sienito) e alguns processos e acidentes em sua superfície, permitindo a constatação de alguns fenômenos que se mostram na superfície.
O pequeno círculo claro formado por material diferente da rocha
circundante é um xenólito.

Sulcos na superfície rochosa formados por intemperismo químico.

A descida:



Já disse o grande Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena". Não diria que foi exatamente fácil largar o conforto de nossas casas, dedicar o nosso fim de semana e sacrificar horas de sono que são tão preciosas em tempos de estudo, mas fomos sabendo do cansaço, responsabilidades e coragem exigidos para uma experiência como essa. Em contrapartida, o desafio serviu mais para renovar as baterias do que nos desgastar:
não há como voltar sem um gás novo de lá!

Uma vez terminada a aula, ainda tínhamos um longo desafio: a volta para casa, começando pela descida que era igualmente cansativa, embora trazendo para os músculos anteriores da perna a força exigida do gastrocnêmio para a subida. Com um misto de saudade, alegria e uma vontade grande voltar lá em outra oportunidade, voltamos bastante satisfeitos e só um pouquinho cansados.

Professor Ivanildo Costa (de boné azul, ao centro) e estudantes de graduação no Pico do Jabre, sobre o Planalto da Borborema, a 1.197 m de altitude (ao fundo, a região do Sertão Nordestino). 15 de Junho de 2014.


Literatura citada:

ANDRADE-LIMA, D. D. E. The caatingas dominium. Rev. Brasil. Bot, v. 4, n. 2, p. 149-163, 1981.

ROCHA, E. A.; AGRA, Maria de Fátima. Flora of the Pico do Jabre, Paraíba, Brazil: Cactaceae juss. Act. Bot. Bras., v. 16, n. 1, p. 15-21, 2002.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A Vida é Sagrada

                                                                                                                   Herbert C. S. Araújo

Proteger a vida e o meio ambiente parece ser visto como mais uma necessidade “inventada” por mudanças sociais recentes, como o uso de máquinas que queimam combustíveis fósseis, os processos de sobre-exploração de recursos naturais para fins industriais e a tão global cultura do consumo. Enganam-se os que pensam assim. As mudanças sociais e tecnológicas nos períodos recentes apenas deram uma nova face –mais utilitarista e antropocêntrica- à proteção do meio ambiente, mas a necessidade de protegê-lo já existia, só que não era com uma visão tão materialista como a que predomina hoje.

Antes de todas essas "novidades", a representação simbólica do mundo natural, como algo sagrado, ou mesmo a visão de determinados ecossistemas como a casa de entidades espirituais ou a crença na sacralidade de algumas espécies, despertou nas mais diferentes culturas humanas (passadas e atuais) a noção de que uma vida saudável inclui a proteção do meio ambiente.

A Árvore da Serra
Acima, foto do interior da mata na "Bica"
(Parque Zoobotânico) em João Pessoa - PB. Ao
lado, um poema onde o místico na natureza
complementa o sentimento de ligação entre
ela e o homem.

- As árvores, meu filho, não têm alma!
Esta árvore me serve de empecilho…
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros… no junquilho…
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma!…

- Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

                     (Augusto dos Anjos)



Na verdade, até a concepção moderna dos parques nacionais criados nos Estados Unidos (o primeiro foi o de Yellowstone, em 1872) surgiu de uma visão mais ou menos mítica e segundo Antônio Carlos Diegues (2001), que é uma das principais autoridades em etnoconservação no Brasil, essa visão tem raízes profundas na ideia de um “paraíso perdido”, um lugar intocado e intocável pela mão humana, onde não deve haver moradores. Mito sim, com direito à alusão ao paraíso, retomada de conceitos da escola romântica e tudo, mas que gera uma contradição perigosa: se não pode haver morador nessas áreas de proteção ambiental, então estaremos afirmando que somos incapazes de conviver com a natureza.

Não precisamos cercar florestas e colocar policiais para vigiá-las, se compreendermos qual o nosso lugar no mundo: somos parte da natureza (física e espiritualmente). A proteção do meio ambiente não é necessariamente contrária aos princípios e propósitos humanos e se você ainda não está convencido, lhe convido a conhecer alguns exemplos de povos que viram na espiritualidade o caminho para a convivência sustentável com o meio ambiente.


O Bosque Sagrado de Oxum (Nigéria)

Há florestas e bosques sagrados de muitas religiões ao redor do mundo e este é um dos exemplos mais interessantes. Na cidade de Osobogo, capital do estado de Osun, Nigéria, há um bosque de 75 hectares que é protegido pelos moradores da cidade por um motivo especial: é um bosque sagrado. O bosque sagrado Osun Osobogo, às margens do Rio Osun (Osun é uma variação do nome Oxum) é considerado a morada do orixá de mesmo nome. Segundo a crença local (também relacionada com as tradições religiosas afro-brasileiras) esse orixá está associado com as águas do rio e, atualmente, o culto à divindade dos nigerianos convive com o rio e a floresta sem destruir nenhum deles.

O vivo bosque, já foi ameaçado (segundo as informações do Batuque dos Orixás) pelo Ministério da Agricultura e Florestas de lá, por ter utilizado no passado suas terras para experimentos agrícolas e o que não só mantém a floresta, mas também fez com que sua área fosse aumentada, foi a devoção ao orixá, com o apoio de um movimento de revitalização. Hoje, o Bosque de Oxum (um lugar muito bonito por sinal) possui 40 santuários e nove pontos de adoração à beira do rio dentro das 75 hectares de floresta protegida.


Pachamama: a mãe terra dos povos andinos, ganha direitos na constituição

Pachamama é uma divindade que representa a própria terra para os povos andinos. Talvez seja a crença que mais se aproxima da nossa necessidade atual de proteger não apenas áreas restritas nem apenas algumas espécies, mas todo o planeta. Além disso, acreditem, a Terra vem tendo seus direitos defendidos no novo constitucionalismo da América Latina graças à cosmovisão indígena de que a natureza, a mãe terra, ou Pacha Mama, é aquela que dá a vida e o sustento de todos nós e, portanto, defender seus direitos significa defender todos os seus habitantes.


No entendimento de Ferreira (2013), trata-se de um desdobramento do novo constitucionalismo na América Latina, iniciado com as constituições do Brasil (1988), Colômbia (1991) e Venezuela (1999), que aflora agora com sua característica pluralidade jurídica e participação popular nas constituições do Equador (2008) e Bolívia (2009). Sem dúvida, trata-se mesmo de uma grande revolução, onde a natureza, representada por uma cosmovisão tradicional passa a ser sujeito de direito. Moraes (2013) afirma ser uma “revolução paradigmática do Direito”, relacionada com a complementaridade entre os seres e entre natureza e sociedade, não apenas em âmbito local, mas entre diversas regiões do mundo. 


Os mórmons e seu pequeno bosque em Nova York

A pequena floresta na fazenda onde a família de Joseph Smith viveu em Palmira (Nova York), é um outro exemplo de proteção ambiental baseado em princípios espirituais. Teria sido em meio à floresta que ele teve a primeira revelação (Primeira Visão).

Dessa pequena mata, a família utilizava algumas espécies para seu sustento sem entretanto destruí-la (a importância para o uso também contava a princípio), mas era também um lugar de experiência espiritual e foi depois que se tornou um local importante para a fé dos mórmons, que a floresta ganhou definitivamente sua proteção.


Franciscanos: uma fraternidade universal

Cabe também lembrarmos a graciosa espiritualidade franciscana. Entre os católicos, São Francisco de Assis (sem grandes obras filosóficas como as escritas por Santo Agostinho e São Tomás de Aquino) deixou a maior herança no que se refere à espiritualidade e relacionamento respeitoso desta com o mundo natural já vivenciada pela Igreja Católica. Sua biografia traz, assim como a simplicidade do seu modo de vida, a beleza de se reconhecer parte da natureza como uma ampliação da compreensão de que é justamente na contemplação da Criação que o louvor a Deus se faz (por isso, louvar as criaturas é parte do louvou ao Criador e é até hoje uma marca da espiritualidade franciscana).

          A relação entre um dos mais importantes santos da tradição católica e a natureza era de absoluta intimidade. Seus biógrafos (contemporâneos ou não) o descrevem como um homem que via a Criação viva em um leproso e aproximava-se calmamente dos pássaros com o mesmo sentimento de fraternidade.


Jurema: planta sagrada entre os índios Potiguara

O que talvez muita gente não saiba –eu mesmo não sabia até bem pouco tempo atrás- é que a jurema, leguminosa muito comum no nordeste brasileiro é uma planta sagrada na cultura indígena, tendo inclusive uso ritual entre os índios Potiguara.  Nas Américas, de acordo com Carneiro (2004), a transmissão oral iniciática de xamãs ou pajés preservou o conhecimento de plantas sagradas, conhecimento que atraiu mestiços e europeus durante séculos, o que permite que hoje tenhamos algum conhecimento sobre elas.

Quando falamos em “jurema”, um nome popular, fica difícil dizer com certeza qual é a espécie biológica de que estamos falando, por dois motivos: primeiro porque nome popular de espécies varia de lugar para lugar e diferentes espécies podem receber o mesmo nome popular e vice-versa, segundo, porque mesmo os botânicos reconhecem mais de um tipo de “jurema”, todas pertencentes ao gênero Mimosa L. (a letra L remete a Lineu, pesquisador que descreveu o gênero), da família botânica Fabaceae (das leguminosas). Este gênero, de distribuição neotropical, é muito grande, possuindo cerca de 496 táxons neotropicais; são 40 as espécies nativas do velho mundo (Dourado et al., 2013). Sabe-se que a jurema -tratada no trabalho de história focando plantas sagradas na América, de Carneiro (2004) como Mimosa hostilis- possui o alucinógeno N,N-Dimetiltriptamina (ou simplesmente DMT).

Spermacoce verticilata L. (Rubiaceae), uma planta 
muito utilizada pelas rezadeiras nordestinas.
No Brasil, o sincretismo cultural e religioso, assim como as crenças populares, tiveram historicamente um papel amplo nas relações da sociedade com diferentes espécies animais e vegetais partindo das representações simbólicas das mesmas. Tive a oportunidade de participar de uma pesquisa sobre uso de plantas em rituais de cura e, o contato com as rezadeiras (tradição conhecida na Região Nordeste) me deu a oportunidade de conhecer de perto a bela relação entre espiritualidade, cultura e biodiversidade, que se somam naquilo que alguns chamam de relações sócio-ambientais.


O reconhecimento do valor que possuem os conhecimentos populares tradicionais foi o principal caminho que levou biólogos e ambientalistas a reconhecer que, para além das leis ecológicas (e de mercado) que orientam o atual discurso sobre proteção ambiental, devemos reconhecer o significado que o mundo natural tem para os diferentes povos e esta compreensão tem levado a intensa mudança de paradigma na proteção do meio ambiente em todo o mundo, configurando-se hoje em um forte campo de pesquisa. Hoje sabemos que o simples fato de alguns povos verem, na terra onde vivem, o berço de sua cultura,da sua fé e verem nela a terra dos seus ancestrais, para muitos povos, é suficiente para que se respeite o meio ambiente. Não é a separação, mas a proximidade com a natureza, que nos leva a respeitá-la.

         
“Essas populações foram estimadas pelas Nações Unidas em 300 milhões, sobrevivendo em setenta países e ocupando os mais variados ecossistemas, como as savanas, florestas e regiões polares. Segundo McNeely (1993), os povos chamados de "tribais, nativos, tradicionais ou de culturas minoritárias diferenciadas" que vivem em regiões isoladas, ocupam cerca de dezenove por cento da superfície terrestre, vivendo em ecossistemas frágeis. Ora, são em geral esses ecossistemas considerados "naturais" os que mais freqüentemente são transformados em áreas naturais protegidas, implicando a expulsão dos moradores. Com essa ação autoritária, em benefício das populações urbanizadas, o Estado contribui para a perda de grande arsenal de etnoconhecimento e etnociência, de sistemas engenhosos de manejo de recursos naturais e da própria diversidade cultural.” (Antônio Carlos Diegues).

         Este foi só um pequeno recorte para termos um ideia da pluralidade de formas com  que a natureza penetra o imaginário e a espiritualidade dos seres humanos. Ainda teríamos muitos outros exemplos riquíssimos a citar, como algumas crenças 
orientais e animistas de diferentes regiões e denominações. Mas o foco não foi fazer o levantamento completo, mas uma breve reflexão para podermos repensar nosso relacionamento com o mundo "natural".




"Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro,
Dizendo-me Aqui estou!
            (...)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),

Obedeço-lhe a viver espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo

E ando com ele a toda hora"
(Alberto Caeiro – heterônimo de Fernando Pessoa)


Percepção Ecológica do Meio Rural

  
Referências

CARNEIRO, H. As plantas sagradas na história da América. Varia História, Belo Horizonte, v. 32, p. 102-119, 2004.

DIEGUES, Antonio Carlos Sant'Ana. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec, 2001.

DOURADO, D.A.O., CONCEIÇÃO, A.S. & SANTOS-SILVA, J. O gênero Mimosa L. (Leguminosae: Mimosoideae) na APA Serra Branca/Raso da Catarina, Bahia, Brasil. Biota Neotrop.13(4): http://www.biotaneotropica.org.br/v13n4/en/abstract?inventory+bn01713042013

FERREIRA, M. A. PACHA MAMA: OS DIREITOS DA NATUREZA EO NOVO CONSTITUCIONALISMO NA AMÉRICA LATINA.Revista de Direito Brasileira, v. 4, n. 3, p. 400-423, 2013.

OLIVEIRA M. G. Constitucionalismo Ecocêntrico na América Latina, o Bem Viver e a Nova Visão das Águas. Revista da Faculdade de Direito, v. 34, n. 1, p. 123-155, 2013.


terça-feira, 6 de maio de 2014

Mundologia


Os Sentidos e a Percepção da Realidade 

                                                                                                                                    Herbert C. S. Araújo


Será a nossa percepção do mundo condizente com a realidade que nos cerca, ou projetamos para o mundo o que a nossa mente produz? Talvez, ambos sejam verdade. Os únicos canais que ligam o ambiente externo ao sistema nervoso são os órgãos sensoriais. As sensações, são parte de nossa experiência subjetiva e aparecem quando os sinais captados do ambiente pelos órgão são enviados a regiões específicas do cérebro, gerando a percepção de um fenômeno subjetivo (processamento) estritamente ligado ao estímulo captado. Nossos referenciais internos são uma parte importante no processo de percepção do ambiente. 


Uma experiência estranha  


“Cortamos a borda do olho de um girino e, sem tocar no nervo óptico, giramos o olho até completar 180 graus. Deixamos que o animal operado complete seu desenvolvimento larval e sua metamorfose até se tornar adulto. Então mostramos um verme ao nosso sapo de laboratório, tomando o cuidado de cobrir o olho virado. Ele tira a língua para fora e acerta em cheio o alvo. Repetimos o experimento, desta vez cobrindo o olho normal. Vemos então que o animal projeta a língua com um desvio de exatamente 180 graus. Ou seja, se a presa está abaixo e na frente do animal, este projeta sua língua para cima e para trás. Toda vez que repetimos o teste, o sapo comete o mesmo erro, fazendo um desvio de 180 graus (...). 



O experimento revela de maneira dramática que para o animal não existe acima e abaixo, ou frente e trás, em relação ao mundo exterior, como existe para o observador que faz o estudo. Existe apenas uma correlação interna entre o lugar de onde a retina recebe uma determinada perturbação e as contrações musculares que movem a língua, a boca, o pescoço e, em última instância, todo o corpo do sapo.” (A Árvore do Conhecimento; Maturana & Varella -1995).






Um outro ponto demonstrado nesta experiência (entre tantos que poderíamos discutir), é que o comportamento e reação a estímulos ambientais depende da recepção e processamento desses estímulos pelo organismo. Qual a abrangência de tais processos? 





Recepção sensorial  

Tudo começa com as células receptoras (que ocorrem nos órgão sensoriais), cujas membranas são especializadas em reagir a um tipo específico de energia (luz, som, eletricidade, magnetismo...), que constitui a modalidade sensorial. Ou seja, parte do processo depende da energia oriunda do ambiente, parte da nossa sensibilidade. Com base na forma de energia aos quais são sensíveis, dá-se nome aos tipos de receptores: quimiorreceptores, mecanorreceptores, eletrorreceptores, termorreceptores e fotorreceptores, por exemplo.  

Receptores internos (interoceptivos) respondem a sinais de dentro do corpo, como os proprioceptores, que monitoram a posição dos músculos e das articulações. Sistemas receptores internos, são importantes para fornecer ao cérebro informações sobre o estado do corpo (como o estado químico ou térmico) e sua posição no espaço. 

Por exemplo, um inseto não possui estatocisto (estrutura para a percepção da gravidade que ocorre em muitos invertebrados) e em parte, ele orienta-se sobre sua posição com base na posição de suas articulações (um referencial interno). Por ouro lado, os insetos e alguns outros artrópodes são sensíveis à luz polarizada devido a um arranjo específico das microvilosidades do rabdômero (presentes nos omatídios dos seus olhos como parte dos fotorreceptores), o simples detalhe do arranjo perpendicular entre essas microvilosidades dá a esses animais a capacidade de se orientarem no espaço pela polaridade da luz, à qual somos, por assim dizer, insensíveis. 

Às vezes, subestimamos o modo como nossos órgãos dos sentidos, sistema nervoso, nosso cérebro e nossa mente podem interferir na maneira como enxergamos o mundo lá fora. É muito comum que nós mostremos o nosso ponto de vista como sendo o “certo” ou a “realidade”. Normal. O que não podemos esquecer, é que um ponto de vista é a visão de um ponto; simplesmente podemos estar iludidos por sensações e uma série de fatores internos (fisiológicos, psicológicos ou mesmo culturais) que afetam nossa percepção do mundo. Mais uma vez, a natureza nos mostrando como podemos aprender com ela.